Juros do cartão de crédito atingem 436% e expõem distorção brasileira

01 de abril de 2026
Veja Negócios

Os juros do rotativo do cartão voltaram a subir e alcançaram 436% ao ano em fevereiro, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira, 30. A taxa mantém essa modalidade de crédito como a mais cara do sistema financeiro nacional, com custo aproximadamente 30 vezes superior à taxa básica de juros da economia — hoje em 14,75%. No mesmo mês, o crédito parcelado no cartão também registrou alta, chegando a 200,2% ao ano, enquanto a taxa média total do cartão avançou para 96,4% ao ano.

O rotativo é acionado quando o consumidor não paga o valor integral da fatura até o vencimento, passando a utilizar uma linha de crédito pré-aprovada. Dados da autoridade monetária indicam que cerca de 40 milhões de brasileiros estavam nessa modalidade em janeiro, com uma taxa de inadimplência de 63,5%. Pelas regras atuais, as instituições financeiras devem oferecer alternativas mais vantajosas, como o parcelamento da dívida, em até 30 dias após a inadimplência.

Mudanças recentes na regulamentação buscaram conter o crescimento do endividamento. Desde janeiro de 2024, por determinação do Conselho Monetário Nacional e de medidas aprovadas pelo Congresso, o valor total da dívida no rotativo não pode ultrapassar o montante original devido — ou seja, um débito de 100 reais não pode superar 200 reais com juros e encargos, excluindo o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A regra vale apenas para operações contratadas a partir dessa data.

O tema tem preocupado autoridades. O Banco Central destacou que cerca de 101 milhões de pessoas utilizam cartão de crédito no país e que essa modalidade tem peso significativo no endividamento das famílias. Segundo o regulador, muitos consumidores recorrem a linhas emergenciais, como o rotativo, de forma recorrente, incorporando esse crédito à renda. O governo federal, por sua vez, tenta estimular o uso de alternativas de crédito mais baratas, como o crédito consignado para trabalhadores do setor privado, que já liberou mais de 80 bilhões de reais em um ano — mas ainda sem efetividade para a redução do número de pessoas endividadas no país.

 

Um caso fora da curva

O custo do crédito no cartão varia amplamente entre países e reflete diferenças de regulação, estrutura bancária e comportamento do consumidor. No Brasil, o modelo combina parcelamento — frequentemente sem juros — com o crédito rotativo, acionado quando o cliente não paga o total da fatura. É nesse segundo caso que as taxas disparam, comumente entre 200% e 400% ao ano. Embora haja alguma regulação sobre o tema, fatores como juros básicos elevados, risco de inadimplência, concentração bancária e subsídios cruzados ajudam a explicar o nível excepcionalmente alto das taxas cobradas no Brasil.

Nos Estados Unidos, o sistema é centrado no crédito rotativo — praticamente sem opções de parcelamento de longo prazo — e funciona com taxas bem mais moderadas, geralmente entre 20% e 25% ao ano. O custo varia conforme o perfil do cliente, com base em pontuações de crédito. Bons pagadores são recompensados com juros menores, enquanto pessoas com um mau histórico arcam com juros maiores. O mercado é altamente competitivo, com oferta de cartões não apenas por bancos, mas diversas lojas em busca de fidelização de clientes. A política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) também influencia essas taxas. Atualmente, a taxa básica de juros dos EUA está no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano — significativamente abaixo da brasileira.

Já no Reino Unido, onde os juros do rotativo giram em torno de 35% ao ano, o modelo é semelhante ao americano, mas sob regulação mais rigorosa da Financial Conduct Authority, o regulador local, que impõe regras de avaliação de capacidade de pagamento e mecanismos para evitar o endividamento prolongado. Quando um consumidor inglês paga mais juros do que o valor da dívida em si ao longo de 18 meses, ele é notificado pela instituição credora, que pede um aumento dos pagamentos e, ao longo dos meses seguintes, costuma oferecer opções de pagamento com juros menores para evitar a inadimplência.

Enquanto no Brasil o cartão de crédito é amplamente usado como instrumento de consumo via parcelamento — e se torna extremamente oneroso no rotativo –, nos Estados Unidos e no Reino Unido, ele tem menos peso no consumo das famílias e é tratado como um produto financeiro precificado de acordo com o risco do cliente. Apenas 14% do consumo dos ingleses e 28% do consumo dos americanos se dava através de cartões de crédito em 2024, segundo dados do Euromonitor e do Banco Mundial. No Brasil, esse percentual era de 40% do gasto total das famílias.

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